Entendendo que aprendizagem e processo de construção de conhecimento são fenômenos de natureza complexa e que os diversos saberes na sociedade do conhecimento não estão vinculados às disciplinas concretas, muitas ultrapassam ou se situam em zonas distantes, é o que dificulta ainda mais para o docente, aprisionado em suas gaiolas epistemológicas e disciplinares, perceber e reconstruir nossa prática pedagógica examinando o que acontece nas fronteiras do conhecimento.
Na verdade, enfrentamos tempos incertos e fluidos com ferramentas intelectuais de outras épocas, observando a realidade como se fosse considerada estável, homogenia e determinada. Mas, o que temos visto no cotidiano da vida é que vivemos em um mundo incerto, mutante, complexo, plural e indeterminado, sujeito ao improviso e ao inesperado. Estamos vulneráveis às emergências para as quais não estamos preparados. O despreparo é grande diante de situações complexas, visto que temos dificuldades, seja individual ou coletiva de encontrar soluções compatíveis com a magnitude e a complexidade de muitos dos nossos problemas atuais. Vivemos em um mundo que requer um pensamento complexo, relacional, questionador, transdisciplinar e uma maneira de pensar e de compreender a realidade e que ajude o indivíduo a melhor entender a dinâmica relacional existente nos processos caractezadores da dinâmica da vida.
Para começar a trabalhar, desde cedo a almejada reforma do pensamento, é que Edgar Morin há 10 anos ofereceu um legado intitulado “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, documento publicado em diversas línguas e aceito por um grande número de profissionais e educadores de diversos países, não como fórmula secreta de como devemos pensar a educação mas buscar demonstrar algumas lacunas existentes entre o que é educar hoje e como deveria ser a educação do futuro. No seu estudo ele nos afirma que a educação depende da combinação desses saberes o qual deveria ser tratada em toda a sociedade e em toda a cultura.
Em seu primeiro saber intitulado como "Enfrentar as Cegueiras do Conhecimento", o autor busca trabalhar a idéia de erro, porque a ciência sempre buscou afastar o erro de sua concepção, sendo assim tudo aquilo que era considerado como erro devia ser retirado da criação do conhecimento. Segundo Morin "O dever principal da educação é preparar cada um para enfrentar os não saberes com lucidez", ou seja, a necessidade de integrar os erros nas concepções para que o conhecimento consiga avançar. Neste saber o autor foca ainda a ilusão na ótica de que somos iludidos sobre o mundo e sobre nossa realidade, e assim nunca se ensina de fato o que é o conhecimento.
Em seu segundo saber o autor busca trabalhar a idéia de conhecimento pertinente, o qual entra em contraposição com o pensamento de que para aprendermos temos que fragmentar, ou seja, quando mais nos fragmentamos as disciplinas mais o conhecimento consegue avançar. A idéia central deste saber remonta a necessidade de que o todo é mais que a soma das partes temos que "pensar as relação entre o todo e as partes", onde a educação do futuro busca estimular a inteligência geral e o conhecimento do todo.
O terceiro saber nos direciona a pensar na condição humana, aprendemos que somos só culturais, precisamos reaprender que não nos limitamos apenas a este aspecto, mas também somos naturais, físico, psíquicos, biológico, sociais dentre outros. Neste saber o autor busca demonstrar que necessitamos reaprender nossa própria condição, "ensinar o ser humano: com razão e sensibilidade; razão e emoção", e que o ser humano deveria ser objeto para educação do futuro.
O quarto saber diz respeito à identidade terrena, o qual precisamos ensinar aos nossos alunos a idéia de sustentabilidade com objetivo construir um planeta que seja viável para as futuras gerações, ensinar, portanto, a identidade da terra pátria. A educação do futuro deve estimular o conhecimento do planeta e a forma como devemos nos relacionar com ele, e devemos "salvar a unidade humana e a biodiversidade".
Em seu quinto saber o autor aborda o princípio da incerteza o qual busca se contrapor aos preceitos defendidos pela ciência cartesiana o qual nos direciona a pensar que tudo que é científico faz parte da certeza, desta forma devemos ensinar nas escolas a idéia de incerteza, sendo assim esta incerteza nos levaria ao avanço da cultura, ao avanço do saber. No processo educativo é necessário saber lidar com a incerteza, "compreender a incerteza do real".
O sexto saber o autor enfatiza a necessidade do ensinar a compreender porque se formos analisar como a educação se apresenta atualmente podemos notar que ela prioriza a incompreensão, a incompreensão dos outros, a incompreensão do mundo. A educação do futuro precisa buscar na incompreensão o entendimento e a aceitação para se alcançar a compreensão, evitar o individualismo. Deixar de compreender o outro pelo que ele tem. Devemos deixar de tentar compreender os outros por nossas crenças e valores "tolerar os outros com sua diferença e de forma igualitária".
O seu último saber aborda a ética do gênero humano, ou seja, ensinar a cidadania terrestre, através da democracia e do diálogo. Daí surgiu um termo denominado pelo autor de antro-poética o qual se ancora em três elementos o individuo a sociedade e a espécie.
Os sete Saberes Necessário à Educação do Futuro coloca a nossa disposição vários saberes que poderão ser utilizados no nosso cotidiano escolar. Mas diante disso o que mesmo é preciso mudar? Como podemos contribuir para o enfrentamento de todas essas crises e para a preparação dos cidadãos para o enfrentamento dos novos tempos? Como humanidade, precisamos de uma reformulação do pensamento como menciona o autor. Precisamos de mentes mais abertas, de escutas mais sensíveis e de corações mais amorosos, mais também de pessoas mais responsáveis e comprometidas com a educação, devendo assim iniciar pelo professor para que possa contagiar os alunos e apresentá-los aos novos horizontes, conduzindo-os a orientação, autonomia e a liberdade. São transformações de natureza profunda e estrutural que envolve o ser, o conhecer, o pensar, o sentir e o agir, não só no que se refere ao conhecimento e à aprendizagem, mas também em relação aos valores, hábitos, atitudes e estilos de vida. Tudo isso implica em uma profunda transformação de consciência, individual e coletiva, a emergência de uma nova consciência capaz de atuar com equilíbrio e maior competência em relação ao viver e conviver humano, dentro da unidade escolar e assim estender para a sociedade.
Assim sendo, Edgar Morin apresenta aqui inspirações que levam o educador a uma reflexão profunda, bem como a repensar seu posicionamento na docência, na relação com os outros discentes, com as grades curriculares, na relação da disciplina e na sua relação com o processo avaliativo, unindo as partes em um todo em uma narrativa de transformação daquelas produzidas em especial para tocar mentes e corações.
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